sexta-feira, 23 de setembro de 2016

ありがとう!

Hoje eu acordei pensando no ano que eu estou deixando passar, novamente, esperando o acaso(que não existe) vir até mim.

No início do ano minha avó faleceu. Mas, antes, ela me ensinou uma lição que eu nunca imaginei que um dia me ensinaria. 
Passei meus 23 anos achando que ela não sabia o que era amor, que queria a solidão ao seu lado e afastava todos ao seu redor. Uma pessoa amarga, eu pensava. 
Por esses e outros motivos, problemas de saúde dela, não a convidei para minha colação de grau. Um momento único que jamais se repetiria. 
Nas festividades de final de ano ela foi para o hospital, local de onde jamais retornou bem. A família se revezava para passar as noites no hospital com ela e eu acabei entrando nisso. 
E foi a melhor coisa que aconteceu. 
Entre dias e noites, conversas, o café que eu dava para ela pela manha, cada colherada que eu dava para ela, cada melhora que ela tinha, cada sorriso que ela dava por eu estar lá, só me faziam perceber que ela me amava. Um dia quando uma enfermeira veio me ajudar a trocar sua fralda, ela começou a dizer com o maior orgulho do mundo sobre minha formação e trabalho. Eu senti como ela se orgulhava da minha profissão que nem todos de minha família aprovavam. Que ela se orgulhava da mulher que eu estava me tornando, de minha personalidade que muitos confrontavam e que ela me amava pelo que eu era. 
Numa noite quando voltava para casa, me deu um aperto no peito e fui para o hospital. Ela já não falava, só gemia. Minha irmã tinha acabado de sair. Peguei a mão de minha avó, disse: 'está tudo bem, você não precisa sofrer mais. Todo mundo vai ficar bem. Não tem problema. Eu amo você.' Naquela madrugada ela faleceu.
Finalmente eu a tinha entendido. Eu tinha perdoado. E me perdoado pelo tempo que passou. Ela nunca veria eu me formando, mas eu sei que uma mulher com a personalidade mais forte que eu já vi como ela, tendo orgulho do que eu sou, me ensinaria finalmente como manter uma família perto, como amá-los e aceitá-los de qualquer forma. Independente de qualquer coisa.

O falecimento da minha avó doeu demais, porém fui forte para ser a âncora da família. Minha irmã precisava de mim. Minha mãe e madrinha precisavam de mim. 

Ela me deu força para deixar tudo, a comodidade de morar com meus pais, meus gatos que eu amo tanto, meus amigos, suporte para todas as ocasiões, o país que tanto amo, e vir para o lugar que eu sempre sonhei. Um lugar que desde criança eu amei sem conhecer.
Eu sentia na alma que havia algo me aguardando aqui. Minhas origens, meu coração batia mais forte. 
Larguei tudo para enfrentar sozinha 28 horas de voo, dois aviões, uma língua que eu falava apenas o básico, pessoas desconhecidas e... Solidão. 

O Japão é um lugar tranquilo, sereno e sem aquele ar do estresse nas ruas. Ou as cidades são muito iluminadas e lotadas de pessoas ou são vazias e escuras. 
Ou existem pessoas demais e poucos carros, ou carros e bicicletas, ou você apenas pensa nas linhas de trem. 
Aqui em Yamanashi eu só penso em bicicleta. As pessoas reclamam, mas eu acho lindo as montanhas, o céu no final da tarde, os idosos passeando de bicicleta, e as crianças sempre risonhas. Também nem tudo é lindo. Existe o cansaço e estresse do trabalho, o desgaste das horas extras e noites mal dormidas.
Mas eu sei, dentro do meu coração que meu lugar não é nessa cidade. Aqui é solitário e muito difícil de manter amizades. Todos pensam sempre em ir embora ou se mudar... Nunca com você, sempre falam de planos sozinhos, e não é assim que eu aprendi a viver. 
Confundem meu amor com dependência. Confundem meu carinho com solidão. Existem dias que ninguém aqui parece querer ter alguém por perto. 

Eu sou feita de amor. Meus pais já diziam, como eu posso então não amar? 

Eu ainda vou achar meu lugar.
Eu ainda vou realizar meus sonhos. 
E me encontrar. 

Obrigada Vó, por tudo que você me ensinou e me deu antes de ir embora. Onde quer que esteja, eu só espero que esteja em paz.

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