O manicômio da minha mente
Aprendi ontem que não viver a infância é um trauma.
Minha vida é constituída por vários traumas.
Hoje sei que preciso ouvi-los, senti-los, entendê-los, para que assim, eu possa supera-lós e construir minha vida de novo, com base em outros sentimentos.
Freud disse para uma mãe, em um ensaio, de um livro, que não há como uma criança crescer sem traumas. Concordo com ele, mas acredito que podemos acolher melhor nossas crianças para que elas saibam lidar melhor com o trauma delas.
O trauma é o tanto que pensamos naquilo que nos incomoda.
Hoje, não sei se perdoei meus pais pelos abusos físicos, psicológicos e negligências, ou apenas parei de me importar com eles nesse lugar.
Aqui é um manicômio, ou melhor, um Hospital Psiquiátrico.
Eu quis quebrar o ciclo familiar doente e tratar minhas próprias doenças.
Ficar consigo mesmo, sem celular, sem ficar com o mundo externo dói. A gente só tem nossas feridas para olhar. Gritos de tentativas de suicídio para ouvir, histórias de usuários de droga para ouvir, doentes mentais, suicidas, surtos e gatilhos para lidar.
No início, eu tentei ajudar o máximo de pessoas que eu pude. Depois, minha dor ficou tão alta e forte que não consegui mais pensar.
Vivi minha vida na negligência emocional, e esperei validação emocional dos meus familiares por 32 anos. Isso não é e não deve ser normal.
Hoje eu quebro esse ciclo. Hoje eu não vou mais esperar.
Minha força é você, meu filho. Por você eu quis melhorar. Por você eu quero me tratar. E por você eu quero me amar de verdade, sem esperar. Sem esperar até de você. Porque você não tem a obrigação de me amar, de me agradecer ou cuidar de mim. Amor não se cobra e muito menos se agradece.
Eu te amo sem querer absolutamente nada de você. Nada em troca.
Você, meu amor, tão pequeno e tão forte. Foi comigo na gravidez, naquela maternidade cheia de violência, na psicose puerperal tão solitária e tão devastadora, na perturbação da amamentação. Você esteve comigo no luto pela Vó Antonia e pelo Koji, e mesmo naquele dia que recebi seu diagnóstico de câncer, você continuou sorrindo, me amando, não pedindo nada em troca.
De uma mãe forte veio um menino sorridente, que me mostra o que é amor até dentro de um manicômio.
Por você é por mim e eu juro eu vou até o fim.
Eu vou perdoar meus traumas e a mim mesma por me negligenciar tanto. Eu vou me amar mesmo quando eu não souber, porque você é o amor que veio pra mim, no maior sorriso do mundo, me dando força pra fazer diferente, viver de novo, ser melhor, por você e principalmente, por mim.
Você é amado, é desejado, é querido e nunca estará sozinho e agora repito isso a mim mesma.
Você é de mamãe, é força de mamãe.
Eu, filha de obaluae, sou cura, minha cura.
Esse ciclo acabou.
Obrigada meu filho, por ter vindo pra mim e me dado coragem.

Obrigada por isso
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